A história do cacau e o trabalho escravo que abastece os mercados de chocolate no mundo

Tem coisa no seu dia a dia que acaba passando batido por você, né? Por exemplo, hoje. Comprei um chocolate e fiquei pensando: será que o cacau dele veio do Brasil ou de outro lugar? Lembrei da época de vestibular e de quando estudei o “Ciclo do Cacau” na literatura do baiano Jorge Amado – a Bahia é o maior estado produtor do fruto no Brasil – e imaginei que provavelmente teria vindo de lá. Mas, lembrei também de algumas reportagens publicadas entre outubro e novembro que relacionavam o surto de ebola a uma crise do chocolate.

Você pode estar se perguntando: o que os dois assuntos têm a ver? Nem todo mundo sabe, mas um pouco mais de 70% da produção de cacau no mundo vem de 4 países da África: Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões. O surto de ebola atingiu alguns territórios que fazem fronteira com esses países, principalmente Guiné, Libéria e Serra Leoa. Ou seja,o avanço da doença poderia desencadear uma crise na produção de cacau e desabastecer os mercados que o importam, fazendo com que o preço do chocolate aumentasse.

Mais de 70% do cacau usado para produzir chocolates no mundo vem da África (foto: sxc.hu)

Mais de 70% do cacau usado para produzir chocolates no mundo vem da África (foto: sxc.hu)

No entanto, antes de pirar com uma possível escassez de chocolate, que tal refletir sobre o contexto histórico por trás dessa questão? Afinal, como o cacau foi parar na África, se ele é um fruto nativo da América? E, além disso, porque a região que abastece quase todo o mundo com chocolate continua sendo uma das mais pobres do mundo?

A exploração colonial feita pelos europeus tem tudo a ver com a resposta para essas perguntas. O cacau já era usado pelos astecas para fazer uma bebida considerada sagrada há mais de 2000 anos. Junto com a semente, era acrescentado mel e baunilha. A mistura recebeu o nome de tchocoatl e deixou o espanhol Hernán Cortez, recém-chegado ao México, muito interessado na receita. E não era para menos. O gosto peculiar da bebida não se parecia com nada antes provado pelo europeu. O cacau era muito importante para o Império Azteca, era usado como moeda e valia mais do que a prata e o ouro. Era considerado uma fruta enviada pelos deuses. Na viagem de volta à Espanha, o colonizador Cortez levou consigo algumas mudas de cacaueiro, que resolveu plantar pelo caminho. Primeiro no Caribe – no Haiti e em Trinidad – e, por último, na África.

Os espanhóis foram os primeiros europeus a terem contato com o fruto do cacauzeiro (foto: Getty Images)

Os espanhóis foram os primeiros europeus a terem contato com o fruto do cacauzeiro (foto: Getty Images)

Mas o chocolate como doce só se popularizou no século XIX, quando o suíço Henri Nestlé (1814-1890) descobriu um método para condensar o leite e deixar as barras de chocolate menos amargas e mais parecidas com o que temos hoje. Por isso, as plantações de cacau na África só começaram a se expandir nesse período e se intensificaram com o advento do neocolonialismo e da dominação dos territórios do continente pelos europeus. Mesmo depois da independência de grande parte das colônias a partir de 1960, grandes multinacionais do ramo dos chocolates continuaram a financiar as fazendas de cacau, que usavam (e continuam usando) trabalho escravo em suas plantações, incluindo a exploração de crianças.

Além das denúncias de trabalho escravo feitas nos últimos anos, uma reportagem publicada pela Aventuras na História mostrou que parte dos lucros pela venda do cacau poderia estar financiando o conflito interno entre o governo da Costa do Marfim, que tem controle sobre o sul, e os rebeldes, que comandam a guerrilha no norte. segundo um relatório feito pela ONG Global Witness.

Se você quiser saber mais sobre o assunto, confira os vídeos abaixo:

Em 2010, um jornalista dinamarquês investigou o trabalho escravo e produziu o documentário “O Lado Negro do Chocolate”. Ele foi até a a África com ajuda de lideranças locais e filmou com câmeras escondidas o tráfico de crianças para as plantações de cacau da Costa do Marfim.

Em 2014, foi a vez de uma TV holandesa produzir uma reportagem na Costa do Marfim sobre trabalhadores rurais que, apesar de produzirem diariamente toneladas de grãos de cacau, nunca tinham experimentado chocolate. O vídeo mostra as desigualdades sociais e a exploração da mão-de-obra africana para abastecer os mercados mundiais com esse doce.

Fonte: guiadoestudante.abril.com.br

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